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Em estado líquido #44

Até há escassos segundos, havia travado uma guerra. Interior, física. Uma guerra cujos oponentes se debelavam seriamente em conseguir alcançar o seu objectivo. De um lado, a contenção, a força, a estratégia, a concentração, a vontade de prolongar no tempo, a luta contra um inexorável destino. Por outro lado, a desconcentração, o animus a querer subjugar-se, a querer baixar a guarda, desistir face à incapacidade de alcançar a eternidade, de bater em retirada ou no mínimo declarar tréguas, deixar-se guiar pelos apelos que se lhe prostravam diante dos olhos e o incitavam a não mais se conter. Uma guerra desonesta, sem honra, perdida à partida mas que ninguém se atrevia a deixar de começar. O corpo e a mente rivalizavam de forma hostil, o primeiro chicoteado por estímulos impossíveis de ignorar, rodeado de apetitosas tentações, inigualáveis sensações, afagos e beijos frenéticos, penetrares húmidos e cavernosos, lamberes lânguidos e acelerados, massajares sedentos e ávidos, chupares impregnados de loucura, abstinentes de razão. A mente fustigada pelo desespero, por uma causa inequivocamente incontornável, por um apressar de vontade, pela luxúria e desejo que se impunham fortes e insanos, numa vassalagem a uma entrega, a um sucumbir. E, de repente, no expoente máximo da querela, um cedeu ao outro, não conseguindo adiar mais a derrota, não conseguindo conter as tropas que avançaram com todas as armas, com os trunfos mais imorais, com os esquemas de guerra menos profícuos. As veias latejantes e o formigueiro instantâneo, o espasmo fugidio e o líquido, a semente, jorrando incontrolável, para fora de si, abandonando o corpo, jazendo no infinito.

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